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Cobogó

O cobogó, elemento icônico da arquitetura brasileira moderna, possui uma genealogia poética que remonta às sofisticadas soluções da arquitetura árabe tradicional. Sua inspiração ancestral encontra-se nos muxarabis (ou mashrabiya), elementos construtivos que transcendiam a mera função para se tornarem expressões de arte, privacidade e conforto ambiental.

As Origens: Os Muxarabis Árabes

Os muxarabis eram treliças ou grades elaboradas, tradicionalmente confeccionadas em madeira entalhada com desenhos complexos e delicados. Mais do que ornamentos, eram dispositivos bioclimáticos inteligentes, concebidos para os climas áridos e ensolarados do mundo árabe. Suas funções eram múltiplas:

  1. Controle Solar e Térmico: A geometria intricada filtrada a luz solar direta, criando um sombreamento dinâmico e reduzindo o ganho de calor no interior.

  2. Ventilação Cruzada: Permitiam a passagem de brisas enquanto mantinham a privacidade visual.

  3. Privacidade com Perspectiva: Os habitantes podiam observar a rua sem serem vistos, um recurso valioso dentro de certos códigos sociais.

  4. Umidade do Ar: Vasos com água eram frequentemente colocados atrás deles; a brisa, ao passar, resfriava e umedecia o ar interior.

A Transposição Tropical: O Nascimento do Cobogó

A genialidade da arquitetura moderna brasileira foi transpor e reinventar esse princípio milenar para o contexto tropical. Na década de 1920, no Recife, o engenheiro Amadeu Oliveira Coimbra, o alemão Ernst August Boeckmann e o português Antônio de Góis uniram as iniciais de seus sobrenomes para batizar uma nova invenção: o CO-BO-GÓ.

A grande inovação foi o material: do madeiramento artesanal passou-se ao concreto vazado (e posteriormente à cerâmica). Esta mudança foi revolucionária:

  • Industrialização: Permitiu a produção em série e a popularização do elemento.

  • Durabilidade: O concreto era mais resistente às intempéries tropicais que a madeira.

  • Plasticidade: Abriu um universo de formas geométricas modernas (círculos, quadrados, losangos, formas orgânicas), embora muitas vezes mais simples e gráficas que os desenhos árabes originais.

O Legado Contemporâneo

Hoje, o cobogó vive um renascimento. Novos materiais (vidro, aço corten, cerâmica esmaltada) e tecnologias (corte a laser, impressão 3D) ampliam suas possibilidades. No entanto, seu princípio essencial permanece: é um filtro poético que modula a luz, o vento e o olhar, criando jogos de sombra e privacidade que dialogam diretamente com a sabedoria ancestral dos muxarabis.

O cobogó é, portanto, um testemunho eloquente de como a arquitetura pode se reinventar através do tempo e das culturas, mantendo viva a busca por soluções inteligentes, belas e adaptadas ao seu lugar.

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