História de um projeto 1

Cada cliente que busca um arquiteto traz consigo uma narrativa pessoal – uma ideia inicial, um sonho a ser materializado e, frequentemente, uma pesquisa prévia que reflete suas aspirações e referências.

Essas demandas se apresentam em um espectro de definição: desde conceitos ainda vagos e em formação, até programas tão detalhados e específicos que, em certos casos, meu papel se assemelha mais ao de um regente, orquestrando elementos preexistentes com sensibilidade técnica. Independentemente do ponto de partida, cada trajetória possui uma riqueza singular, e o processo colaborativo culmina em um sentimento compartilhado de realização – tanto para o cliente quanto para o profissional. Esta simbiose criativa é, em essência, como o processo de um projeto deve funcionar.

A condução bem-sucedida requer um certo distanciamento profissional, permitindo que as expectativas emocionais sejam gerenciadas com eficiência, ponderação e objetividade. Este equilíbrio é fundamental para que o resultado final supere as expectativas iniciais, transcendendo o imaginado.

Neste e no próximo post, compartilho as histórias por trás dos projetos – alguns já documentados fotograficamente no portfólio – que representaram experiências particularmente enriquecedoras em sua execução.

O Jovem Casal e a Casa para Convivência

A primeira narrativa envolve um jovem casal que me procurou por identificação estilística com minha linha de projetos. Com um terreno inserido em condomínio fechado, seus desejos eram claros: uma casa luminosa, ventilada, com presença marcante de madeira e, como ponto central do programa, um espaço otimizado para receber amigos e familiares.

A área de lazer foi tratada como elemento primordial, exigindo uma conexão especial com toda a residência – visibilidade imediata a partir dos principais ambientes e acesso fluido e intuitivo, promovendo uma integração contínua entre convívio interno e externo.

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A distribuição dos ambientes neste projeto equilibra aspectos tradicionais com adaptações específicas, refletindo a prioridade absoluta concedida pelos clientes ao convívio familiar e social na área comum.

Organização Espacial e Conexões

Ao adentrar pela porta principal, o primeiro ambiente à esquerda é um escritório com entrada independente pela lateral da casa, garantindo privacidade para atividades profissionais sem interferir no fluxo doméstico. Imediatamente após o hall, um jardim de inverno cumpre múltiplas funções: promove ventilação cruzada, iluminação zenital difusa e oferece um refúgio sensorial com uma rede integrada à vegetação. Deste ponto, a visão é praticamente panorâmica para os ambientes internos, estabelecendo uma conexão visual contínua.

A sequência social – sala, cozinha, varanda, balcão com cozinha externa completa e piscina – é intencionalmente exposta e integrada, criando um circuito fluido para recepção e entretenimento. Em contraste, a área íntima mantém-se isolada e tradicional, preservando a privacidade dos moradores.

Solução Inovadora: Área de Serviço Integrada

Um detalhe projetual que pode surpreender é a localização da área de serviço, com acesso direto pela sala. À primeira vista, poderia parecer uma decisão incomum, mas trata-se de uma solução estudada e plenamente endossada pelos clientes.

A porta de vidro opaco com puxador longo foi especificada para mimetizar um acesso a outro ambiente social, evitando a estigmatização típica de portas de serviço. Seu interior é totalmente planejado e organizado: quando aberta, a visão é imediatamente interceptada por um armário de parede completa, que atua como barreira visual. A vantagem operacional é decisiva: todo o tráfego relacionado a serviços domésticos (lavanderia, arrumação) fica isolado, sem cruzar com a área social ou mesmo a cozinha, preservando a fluidez e a atmosfera dos espaços de convívio.

Sucesso do projeto: Experiência do Uso

O verdadeiro êxito de um projeto arquitetônico reside em atender simultaneamente às dimensões estética, prática, estrutural e emocional dos sonhos de quem irá habitá-lo.

Após quase dois anos de ocupação e convivência diária dos proprietários com a casa, posso afirmar que o sucesso foi plenamente alcançado. A residência não apenas materializou aspirações, mas também evoluiu organicamente com o estilo de vida de seus moradores, validando as escolhas projetuais em sua experiência concreta.

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